O Pequeno Faísca

Era uma vez um pequeno dragão, Faísca, de pelo branco e vermelho, estava sempre procurando ajudar, mas por seu tamanho diminuto ninguém lhe dava crédito. Um dia algo inesperado mudou tudo. A vila dos dragões foi invadida e Seven, líder dos dragões, gravemente ferido. Sem ajuda, Seven se viu à mercê de seus inimigos, principalmente Ilo, líder do clã rival. O pequeno Faísca, percebendo a gravidade da situação, saiu em defesa do amigo e líder. Disse: Pare, Ilo! Não dê mais um passo! Se quiser atacar ao nosso líder, terá que passar por mim! Ilo, olhando para o corpo diminuto de Faísca, riu com indiferença. Você, um nanico, vai me impedir de matar Seven? Morro de risa! Faísca não arredou o pé, abrindo as asas, pôs-se em posição de combate. Não tinha medo. Sabia que estava enfrentando um inimigo astuto e traiçoeiro. Em seu interior, já havia decidido que, ainda que morresse, protegeria seu líder e seu lugar. Ilo, indiferente à coragem de Faísca, partiu para o ataque. Cheio de fúria, golpeou o pequeno Faísca duas, três vezes. Incrivelmente, nenhum dos golpes atingiu Faísca, que se mantinha firme. Ilo tentou outras tantas vezes, mas não obteve sucesso. Esgotado pelo esforço, Ilo desabou. Me rindo, não consigo vencer um nanico. Faísca não se fez de rogado, atacou Ilo, ferindo-lhe uma das asas e deixando sem defesas. Ao ver a cena, Seven imaginou estar sonhando. Como poderia o pequeno Faísca ter vencido o grande Ilo? Seus companheiros, percebendo a situação, se aproximaram e, ao ver o pequeno Faísca de pé e o grande Ilo ao solo, não acreditaram. O quê? Foi o pequeno Faísca quem venceu o grande Ilo? Sim, o pequeno Faísca venceu o grande Ilo.A vila, que antes desacreditava Faísca, passou a vê-lo com outros olhos. Não é o tamanho que importa, mas a coragem que está no coração.

New Monty: o preço do herói

NEW MONTY: O PREÇO DO HERÓI
Um conto policial com Allan Kitch e Peter Adams

CAPÍTULO 1 – O MILAGRE

Allan Kitch tinha trinta anos, um distintivo de patrulheiro e uma gaveta cheia de provas para o exame de detetive que nunca conseguia passar.

Ele e Peter Adams conheciam New Monty pelo cheiro. Cheiro de maresia, de peixe na caixa de gelo e de protetor solar de turista. Cinco mil habitantes, dois hotéis com fila de seis meses, passeios para mergulhar com tubarões. Uma cidade que o prefeito Jenkins chamava, em todo palanque, de “milagre do litoral”.

A rotina quebrou quando o delegado Morton fechou a porta da salinha e disse: “Interpol avisa que estão tirando gente daqui. Mulheres jovens. Crianças. Usam nossos barcos.”

Ninguém tinha nome. Ninguém tinha rosto.

Naquela tarde, numa estrada de barro que cortava o mangue, Peter freou. Marcas de pneu duplas, fundas, ainda úmidas. De caminhão pesado. Ali, onde nem jipe de pescador passava.

Seguiram a pé. A casa apareceu engolida pelo mato. Madeira podre, janelas pregadas por fora. Mas a antena parabólica era nova.

“Dez minutos. Só olhar”, disse Peter.

O cheiro dentro não era de mofo. Era de gente trancada há dias. No chão, duas mulheres e três crianças amarradas com lacre de caminhão. Não gritaram. Não tinham mais força.

Uma das mulheres agarrou o colete de Allan: “Eles voltam hoje à noite. O barco sai hoje à noite.”

O resgate foi rápido, a varredura foi inútil. A casa estava lavada com água sanitária. Nenhuma digital.

Foi Allan quem falou: “Eles vão voltar. Traficante não perde mercadoria sem conferir.”

Morton olhou para os dois patrulheiros pela primeira vez sem desprezo. “Apaguem tudo. Todo mundo no mato.”

Ficaram seis horas no mangue. Quase meia-noite, uma Hilux preta. Três homens sem máscara, confiantes. Quando se aproximaram, receberam voz de prisão. Tentaram fugir, foram capturados.

Na delegacia, o mais velho falou para salvar a pele. Falou de um galpão no porto, de um contêiner que não refrigerava nada, de um caderno com nomes. E falou o nome da empresa de turismo que tinha contrato com a prefeitura.

Em 48 horas, New Monty virou manchete nacional. Gente de terno algemada no Jornal Nacional. Allan e Peter ganharam medalha, entrevista no Fantástico e a promoção a detetive.

CAPÍTULO 2 – A DONA DA BONECA

O problema de virar herói em cidade pequena é que todo mundo te conhece.

Na primeira semana como detetives, Allan não conseguia comprar pão sem selfie. Na segunda, não conseguia dormir.

Era o caderno. Tinha 47 nomes. Só 42 vítimas foram encontradas. Faltavam cinco. E o delegado Morton arquivou o caderno como “prova já processada”.

Allan voltou sozinho à casa do mangue. Alguém tinha cortado o mato da frente. No batente da porta, gravado a canivete, fresco: cinco traços. Quatro riscados. Um intacto.

Dentro, onde as crianças estavam, havia uma boneca de pano. Limpa. Cheirando a amaciante barato.

Ele levou a boneca para Peter. No porto, o contêiner já tinha sido liberado. Mas no caderno de registro do vigia noturno havia uma linha na noite do resgate: Saída – Lancha Jenkins – 01:14 – 1 passageiro.

O farol de New Monty pertencia à família Jenkins há três gerações. Desativado, virou mirante.

A porta estava aberta. Lá dentro, não havia traficante. Havia uma adolescente de 16 anos com a mesma boneca no colo. Lúcia, filha da faxineira do Hotel Maresia. Desaparecida há 8 meses.

“Não foram os homens da Hilux”, ela disse. “Foi a secretária do prefeito. Ofereceu emprego de babá no barco de turista. O barco foi para o farol. O farol era o entreposto.”

As cinco do caderno eram as do farol. Quatro foram levadas nas 6 horas em que a polícia fez festa na cidade. Só Lúcia se escondeu num alçapão quando ouviu as sirenes.

“Por que a boneca na casa?”

“Eu deixei. Eu vi vocês na TV. Se foram corajosos uma vez, iam voltar.”

Allan não ligou para Morton. Ligou para a Federal.

Duas horas depois, a casa do prefeito foi cercada. No cofre, não havia dinheiro. Havia vinte e três passaportes de meninas com vistos carimbados. E o quinto nome, sem risco: Lúcia.

Morton pediu aposentadoria no mesmo dia. Nunca foi indiciado.

Na manhã seguinte, Allan e Peter não estavam na coletiva. Estavam no hospital, vendo Lúcia comer sem medo.

Allan finalmente entendeu. Herói não é quem prende bandido na tocaia. É quem volta ao mangue quando já tem medalha no peito e nada a ganhar.

FIM

Umbra

Nas terras esquecidas de Umbra, o Amor não era uma luz, mas uma sombra devoradora. Dizem as lendas que, antes da aurora da humanidade, o Amor era um espírito caprichoso, nascido do vazio e alimentado pela insegurança. Ele não buscava a união, mas a posse absoluta.

Havia uma jovem chamada Elara, cuja pureza atraía a atenção desse espírito sombrio. O Amor sussurrou em seu ouvido promessas de eternidade, mas cada palavra era uma corrente invisível. “Se me amares”, dizia a voz suave como veneno, “deves renunciar ao sol, à lua e aos teus próprios sonhos.” Elara, cega pela paixão inicial, aceitou.

Pouco a pouco, o jardim de sua alma murchou. Onde antes floresciam risos, agora cresciam espinhos de dúvida. O Amor tornou-se um abismo profundo, um poço sem fundo onde a identidade de Elara se dissolvia. Ela não era mais ela; era apenas um reflexo distorcido do desejo alheio. O caos reinava em seu coração, uma tempestade silenciosa que destruía tudo o que tocava.

Os vilarejos vizinhos observavam com temor. Não era devoção, era maldição. O Amor, naquela era antiga, não libertava; aprisionava. Era um labirinto sem saída, onde os passos dados em direção ao outro eram, na verdade, passos para longe de si mesmo.

Foi apenas quando Elara olhou para o fundo desse abismo e viu não o rosto do amado, mas o seu próprio terror refletido, que encontrou a força para romper as correntes. Com um grito que ecoou pelos vales, ela rejeitou a posse. O espírito do Amor, ferido por essa autonomia, recuou para as sombras, transformando-se. Aprendeu, através da dor da perda, que a verdadeira conexão não nasce do controle, mas da liberdade.

Assim, a maldição foi quebrada, mas a cicatriz permaneceu na história, lembrando-nos que o amor, quando desprovido de respeito, é apenas o caos disfarçado de destino.

Ana, de nove anos, tinha mãos verdes e um coração dourado. Em seu pequeno quintal, não cresciam apenas flores; brotavam remédios da terra. Ela conhecia a hortelã para a dor de barriga, o alecrim para a memória e a camomila para acalmar os sonhos. Com paciência de sábia anciã, distribuía mudas e conselhos aos vizinhos do bairro, ensinando que a natureza cura quando bem cuidada. Certo dia, uma tempestade feroz abateu-se sobre a cidade. Ventos uivantes arrancaram telhas e dobraram árvores. Ana correu para proteger suas preciosas ervas, mas o vento foi implacável. Ao amanhecer, o silêncio era pesado. Seu jardim estava devastado. Plantas arrancadas, vasos quebrados, terra espalhada pela lama. Ana chorou, sentindo que havia perdido sua missão. Foi então que a Dona Clara, vizinha idosa que sofria de insônia, bateu à porta. Trazia nas mãos um pequeno vaso com um broto de camomila sobrevivente. “Encontrei isso preso entre as pedras do muro”, disse ela, com voz trêmula. “Você me ensinou que mesmo na adversidade, a vida persiste.” Outros vizinhos apareceram. O Sr. Jorge trouxe manjericão resgatado; a pequena Bia, um pé de menta. Cada um devolvia um fragmento do cuidado que Ana lhes dera. Juntos, replantaram o jardim. Ana percebeu, secando as lágrimas, que sua verdadeira magia não estava nas plantas intactas, mas no conhecimento compartilhado. O jardim físico podia ser destruído, mas a rede de cuidado que ela teecera era indestrutível. A tempestade levou as folhas, mas fortaleceu as raízes da comunidade. Ana sorriu, entendendo que cuidar do outro é a maior das curas.

Amor além do tempo

Amor além do tempo Ye Shao e Kim Lan eram amantes desafortunados, separados por um ódio do passado, uma rixa entre famílias. Separados em vida, se reencontraram após a morte, em outro mundo. Neste novo lugar, tiveram chance de recomeçar e viver seu amor. Ye Shao e Kim Lan se conheceram durante o Banquete das Flores, na residência do Marquês de Santy. Foi amor a primeira vista. Ela, Ye Shao, era filha do Primeiro Ministro do Reino de Valarda, jovem e bonita; ele, Kim Lan, um jovem general, campeão de guerra. A atração imediata foi notada pelas famílias, que não aprovaram o romance. Um ocorrido no passado tornou as famílias de Ye Shao e Kim Lan inimigas mortais. Diante da intransigência dos parentes, o casal começou a se encontrar às escondidas. Os criados de confiança eram os emissários de bilhetes, cartas e prendas de amor. O romance proibido durou dois anos até que, um dia, o irmão de Ye Shao descobriu o local dos encontros por acidente. O mundo de amor do casal caiu. Ye Shao foi presa no quarto, proibida de sair. Sua criada de confiança foi castigada e vendida. Kim Lan, a pedido de seu pai, foi enviado a fronteira, sem modo de voltar e seu criado, espancado até a morte. O desgosto tomou conta dos jovens, que começaram a definhar a olhos vistos. Pararam de se alimentar, não cuidavam da higiene pessoal, não procuravam descansar. Em seis meses, estavam a beira da morte. Nenhum médico ou curandeiro conseguia descobrir a causa da doença que os assolava. Um dia, a criada que cuidava de Ye Shao, entrou correndo no salão principal da mansão. Aos gritos, contou aos presentes que a jovem estava morta. Na fronteira, Kim Lan também havia sido encontrado sem vida. Ambos os jovens faleceram no mesmo dia, mês e hora. Não deixaram cartas, nem bens. Tudo o que possuíam havia sido doado aos necessitados fazia bastante tempo. Criados de confiança de ambos os jovens, que restavam nas respectivas residências, haviam cumprido seus últimos desejos. Em seus aposentos não tinham nada, nem roupas, sapatos ou jóias. Não havia um único item que lhes pertencessem. Tudo tinha sido retirado há tempos. A tristeza e a revolta cobriu Valarda. O Imperador decretou luto de sete dias. A população, revoltada, atacou as residências de ambas as famílias, destruindo várias coisas. Os corpos de ambos os jovens , Ye Shao, que tinha sido colocado no mausoléu familiar, e Kim Lan, trazido da fronteira e levados ao quartel militar,foram resgatados e , nos braços das pessoas, levados, juntos, até o bosque de pinheiros. Lá, duas covas foram abertas, uma ao lado da outra e os cadáveres de Ye Shao e Kim Lan colocados em cada um delas. Um monge oficiou o enterro, dizendo que agora o casal poderia permanecer junto pela eternidade. O povo, ajoelhado, repetiu a prece. Flores foram espalhadas ao redor dos túmulos em memória dos jovens que, cantavam os cancioneiros, haviam morrido de amor. Trezentos e setenta anos depois, na era moderna, a jovem advogada Mei Ly chegava ao seu escritório. Tinha vencido mais uma batalha jurídica. Ao entrar, sua secretária, Aly Man, veio ao seu encontro, dizendo que um cliente importante a aguardava. Mei Ly entregou sua pasta a Aly e foi em direção a sala de reuniões. Ao entrar, percebeu uma forte presença, algo que não soube explicar. “Senhor, seja bem vindo. Sou a advogada Ly. Em que posso ajuda-lo?. O homem, que estava de costas, virou-se. Ao vê – lo, Mei Ly teve uma sensação estranha, como se já o tivera visto antes. “Advogada Ly, sou Zhao Ran, de Ran Tecnologys. Prazer em conhecê -la. Já ouvi falar muito sobre você e seus feitos jurídicos. O motivo da minha visita é simples: um dos meus sócios me traiu, vendendo segredos comerciais a um rival. Necessito assistência jurídica para saber como proceder neste caso. Poderia me ajudar, advogada Ly? Os honorários não importam, pode pedir o que achar necessário. Só peço que seja minha consultora e me ajude com está questão “. Mei Ly deu uma boa olhada em Zhao Ran e percebeu que era um homem acostumado a ganhar, que não fazia rodeios, nem usava meias palavras. Era senhor absoluto de si mesmo, não se deixando levar pelas emoções, nem desejos. “Então, senhor Zhao, qual é exatamente o problema que a sua empresa enfrenta com relação a esse seu sócio? Roubo de documentos apenas, ou há mais alguma coisa?” Zhao Ran sorriu.”Os boatos não são mentiras. A advogada Ly é realmente uma pessoa perspicaz. Esse meu sócio, além de revelar segredos para a concorrência, também desfalcou uma boa quantia de dinheiro, cinquenta milhões de dólares, repassou uma das propriedades da empresa a terceiros e difamou a minha pessoa, chamando-me de gay enrustido. O boato foi de que me aproximo das mulheres apenas para disfarçar minha verdadeira condição. Imagine qual não foi a reação da minha mãe ao ouvir essa estória “. Mei Ly mordeu a língua para segurar o riso. Um dos solteiros mais cobiçados da cidade ser gay? O que tinha dado na cabeça dessa pessoa para inventar uma estória dessas? Esse era o tipo de causa que ela adoraria ganhar! ” Advogada Ly, está me ouvindo? Oi, advogada Ly? ” Mei Mei Ly saiu de seu devaneio, adotou sua melhor postura profissional e disse: ” Senhor Zhao Ran, aceito seu caso. Sobre os honorários, pode discutir os trâmites com minha secretária, Aly Man “. Estendeu a mão para cumprimentá-lo e se despedir, mas ao toca-lo, sentiu como se uma corrente elétrica lhe percorresse o corpo inteiro. Uma sensação de déjà vu a invadiu e a fez cambalear. Em um reflexo rápido, Zhao Ran a segurou, impedindo que caísse. Imediatamente, imagens, como se fossem lembranças, vieram a sua mente. Um jovem casal apaixonado, de uma época diferente, enfrentava repreensões e castigos apenas pelo fato de estarem juntos. Zhao Ran sentia como se ele próprio estivesse sendo castigado. A dor da separação era perceptível, muito real. O que estava acontecendo? Mei Ly, por sua vez, também tinha percepções: um jovem casal apaixonado, juras de amor, encontros furtivos, separação, morte. Ela sentia um dor no peito que não sabia explicar. Na tentativa de compreender o que ocorria, soltou -se dos braços de Zhao Ran. No mesmo instante, algo parecido a um corte lhe dilacerou o peito, não conseguia respirar. Para tentar ajudá-la, Zhao Ran a colocou no sofá e chamou a secretária e seu assistente. Aly Man veio correndo com um copo de água e um comprimido e o deu a Mei Ly para que tomasse. Apoiado por seu assistente, Sy Than, Zhao Ran sentou-se em uma cadeira, respirou fundo e tentou entender o que estava acontecendo. O que significavam aquelas imagens? Qual o motivo de sentir tanta dor, uma angústia dilacerante? Isso nunca lhe havia ocorrido. Necessitava investigar bem o assunto. No sofá, Mei Ly dava sinais de melhorar. Ela também não entendia o significado das visões, nem o porquê de tanta dor. Era uma profissional qualificada, não temia juízes, nem tribunais, e de repente, sem motivo, começava a delirar. Decidiu ligar para sua amiga Su Yan e marcar um horário. Su Yan era médica, iria com certeza descobrir o que estava acontecendo. Percebendo que Mei Ly estava melhor, Zhao Ran levantou -se, se despediu e saiu, ainda confuso com o que tinha se passado. Mei Ly, já recuperada, pegou o celular e ligou para Su Yan. Contou a ela o que tinha ocorrido e sua amiga pediu que fosse ao consultório no dia seguinte. Estava achando tudo muito estranho. Mei Ly não era de ficar doente, alucinar muito menos. Algo não quadrava. Algum mistério havia aí. Enquanto isso, na residência de Zhao Ran, sua mãe o aguardava, preocupada com a boataria espalhada pelo ex-socio. Seu filho único era um solteiro convicto, que nunca tinha dado asa a mulher alguma. Aquelas que o perseguiam faziam uma fila até Paris, mas Zhao Ran parecia não se importar. Era como se estivesse esperando por alguém, uma pessoa especial. Sua mãe acreditava nisso, em encontros predestinados. Zhao Ran chegou a casa apoiado por Sy Than. Ao vê -lo, sua mãe apavorou-se e indagou do assistente sobre o que ocorrera. Sy Than disse-lhe o que sabia, mas não conhecia o motivo de tal situação. A senhora Ran chamou o mordomo e ordenou que chamasse o médico da família. Depois, pediu a um dos empregados que ajudasse Sy Than a levar Zhao Ran para o quarto. O médico veio, fez o exame e disse que Zhao Ran apresentava febre alta, mas não aparentava ter infecção ou outro tipo de moléstia. Provavelmente, havia sofrido um choque emocional violento, o que provocara a febre. A senhora Ran agradeceu ao médico e se despediu. Depois, voltou para sala , a conversar com Sy Than, sobre o dia de Zhao Ran. O assistente disse que o dia tinha sido como qualquer outro, com reuniões na empresa e uma visita ao escritório da advogada Mei Ly, para falar sobre o assunto do sócio. Sy Than contou que foi durante a conversa com a advogada Ly que Zhao Ran havia apresentado os sintomas e que a advogada Ly também tinha passado mal, sendo socorrida pela secretária. A senhora Ran agradeceu a Sy Than e o dispensou. Depois, ficou a pensar consigo mesma sobre o que poderia fazer com que duas pessoas que não se conheciam, ao se cruzarem, sentiriam -se mal a ponto de quase desmaiar em? Que mistério era esse? O que estava oculto? A mãe de Zhao Ran pensou, refletiu e decidiu ir ao templo buscar a ajuda dos monges. No apartamento de Mei Ly, as coisas também não iam bem. Ao chegar em casa, Mei Ly sentiu -se mal novamente e resolveu ligar para Su Yan, que foi ao apartamento e encontrou Mei Ly às voltas com uma febre altíssima. Su Yan colocou Mei Ly no soro e decidiu passar a noite lá. A médica não entendia o que acontecia com sua amiga. Advogada Ly sempre tinha apresentado boa saúde, raramente ficando doente. Agora, de uma hora para outra, ao atender um cliente, já tinha passado mal duas vezes, sendo que o mesmo havia ocorrido com o cliente. Era realmente estranho. Será que o cliente usava um tipo de perfume ou loção pós barba que continha algum ingrediente alérgico? Mas, Su Yan pensou, Mei Ly nunca tinha tido nenhum tipo de alergia. Intrigada, a médica resolveu buscar na internet informações sobre o assunto. O que encontrou não foi bem o que esperava: reencontro de almas, dizia uma das postagens; recordações de vidas passadas, dizia uma outra. E várias outras, sempre com o mesmo tema. Su Yan, mais confusa que antes, ligou para um colega, médico psiquiatra, e relatou a situação. O profissional pediu que, assim que Mei Ly melhorasse, fossem até sua clínica, para alguns procedimentos. Combinado feito, se despediram e Su Yan foi ao quarto observar Mei Ly. Estava empapada de suor e dizia coisas incoerentes, repetindo sempre o mesmo nome: Kim Lan. Na residência de Zhao Ran, como se fosse brincadeira do destino, a febre não baixava, ele murmurava coisas e falava sobre batalhas e guerras, imperadores, mansões, primeiro ministro, Valarda e um nome: Ye Shao. Foi uma longa noite para as famílias de Mei Ly e Zhao Ran. Uma doença inesperada, algo incomum que os médicos não sabiam diagnosticar. Uma semana se passou. Ambas as pessoas melhoraram. Mei Ly voltou a trabalhar e avaliar casos no escritório. Zhao Ran voltou a comandar suas empresas. Sobre o assunto da traição do sócio, Mei Ly e Zhao Ran se falavam através de sua secretária e seu assistente, respectivamente. Dois meses depois, a primeira audiência foi marcada. Havia provas suficientes para acusar o sócio de roubo de informações comerciais, apropriação indébita, desvio de dinheiro e difamação. Nesse meio tempo, Su Yan convenceu Mei Ly a conversar com seu colega psiquiatra. O médico perguntou se ela já tinha tido esse tipo de alucinações antes, fosse por sonhos ou visões. Mei Ly negou e disse que a primeira vez foi no dia em que atendia o senhor Zhao Ran, no momento em que se desequilibrou e ele a segurou, impedindo que caísse. Foi nessa hora, contou ela, que teve as visões e sentiu uma profunda dor, chegando quase a desmaiar. O profissional então, perguntou se ela gostaria de se submeter a uma sessão de regressão. Mei Ly disse que era necessário tratar de alguns assuntos, causas que estavam em curso, mas que, ao terminar, com certeza faria o procedimento. Na casa de Zhao Ran, sua mãe se preparava para ir ao templo. A viagem duraria,pelo menos, uma semana, justamente na semana que estava marcada a audiência. A senhora Ran lamentou, mas não podia deixar a dúvida permanecer. Deu ordens ao mordomo acerca do funcionamento da residência e partiu. Não se despediu do filho, mas confiou que ficaria bem. Alguns dias se passaram. Era a data da audiência. Mei Ly, acompanhada de Aly Man, esperava na entrada do fórum a chegada de seu cliente. Dez minutos depois, o carro da Ran Tecnologys estacionou. Sy Than desceu e abriu a porta. Zhao Ran, em terno cinza, exalava poder e dinheiro. Exalava também, Mei Ly percebeu, uma masculinidade latente. Ao subir as escadarias, todos os olhos se voltaram para ele. Mulheres entortavam seus pescoços para vê -lo, homens se intimidaram com sua presença, outros permaneciam de boca aberta, sem ter palavras. Zhao Ran cumprimentou sua advogada e entrou no fórum, seguido por Sy Than. Mei Ly entrou logo atrás, seguida por Aly Man. Todos estavam presentes, incluindo o sócio traidor, senhor Venn e seu parceiro de tramóias, Vican Lee, cuja empresa rivalizava com a de Zhao Ran. O juiz adentrou o recinto, todos se levantaram. Após uma breve apresentação, o juiz pediu sentar e as pessoas relaxaram. Então, os advogados de ambas as partes começaram a apresentar as provas e decorrer sobre o caso. Senhor Venn foi chamado a depor. Advogada Ly iniciou perguntando o motivo de espalhar boatos a respeito da opção sexual do ex- sócio. Venn riu e disse que Zhao Ran era um homem mesquinho, que queria tudo só para ele. Disse que, depois de dez anos de parceria, não tinha conseguido nada de substancial e que Vican Lee havia lhe prometido a vice presidência, caso conseguisse os documentos secretos. Espalhar boatos foi apenas uma forma de desviar a atenção. Venn, de repente, se deu conta do erro que cometera. Havia confessado um crime frente ao juiz, que o observava. Mei Ly esboçou um sorriso e deu por concluída a inquirição. Vican Lee bufava. Venn, o idiota, havia posto tudo a perder. Agora, só tinha uma maneira de se livrar da acusação: Zhao Ran tinha que morrer. Vican Lee se afastou da sala do tribunal, pegou o celular e fez uma ligação. Era a encomenda da morte de Zhao Ran. A audiência prosseguiu com a apresentação de novas testemunhas. Durante seis horas, o juiz ouviu as testemunhas, analisou as provas e deu o veredito. Mei Ly havia vencido mais uma vez. Zhao Ran convidou a todos para um jantar de comemoração. Sairam do fórum e se dirigiam ao estacionamento quando, de repente, um automóvel surgiu, indo na direção de Zhao Ran. Mei Ly, percebendo o perigo, o empurrou para o lado, sendo atingida pelo veículo, que empreendeu fuga. Sy Than e Aly Man ligaram para a polícia e o resgate, que chegaram em dez minutos. Na porta do fórum, muita gente se reunia, procurando saber o que tinha acontecido. O juiz, tendo se internado do caso, ordenou uma inspeção completa nas câmeras das ruas, em busca de imagens do veículo atropelador. Enquanto isso, Mei Ly e Zhao Ran eram colocados na ambulância e levados ao hospital. Zhao Ran, apesar dos esforços de Mei Ly, havia ficado ferido, mas sem gravidade. Mei Ly, por outro lado, tinha perdido muito sangue e estava inconsciente. Ao chegar no hospital, Mei Ly foi levada às pressas para o centro cirúrgico. Zhao Ran, para o atendimento geral, pois apresentava apenas escoriações e o braço esquerdo fraturado. Consciente, Zhao Ran pediu informações sobre a advogada Ly. Siy Than lhe disse que estava grave, necessitando sangue de panda, mas o hospital não tinha estoque suficiente. Zhao Ran ordenou a Sy Than que convocasse de imediato os funcionários da empresa com sangue de panda, dizendo que o bônus de fim de ano seria em dobro para quem ajudasse. Sy Than saiu a cumprir a ordem. Logo, o hospital tinha estoque de sangue suficiente para atender Mei Ly. Enquanto isso, a senhora Ran , tendo retornado da viagem e avisada sobre o acidente, estava a caminho do hospital. O monge do templo havia dito algo misterioso. Disse que o destino de Zhao Ran havia chegado e dependia dele fazer a escolha certa. Intrigada com essas palavras, a senhora Ran chegou ao hospital e logo se dirigiu ao quarto onde estava Zhao Ran. Sy Than lhe fazia companhia. A senhora Ran lhe contou sobre a viagem e as palavras do monge. Zhao Ran ficou intrigado. Não entendia o que significava. Seu pensamento estava em Mei Ly. Ela havia lhe salvado a vida. Um incômodo, uma sensação de perda iminente o dominou. De repente, as imagens voltaram, dessa vez mais nítidas: a jovem, o jovem com roupas militares, encontros furtivos, juras de amor, a proibição, separação, morte. Ele viu, nítido, as faces dos dois jovens: o rapaz se assemelhava a ele, Zhao Ran; a jovem, a advogada Ly. Um choque violento tomou conta dele. Estaria tão preocupado com sua salvadora que sua mente estava lhe pregando peças? Ouviu os nomes: Ye Shao e Kim Lan. Chamou o assistente, deu os nomes e pediu informações o mais rápido possível. Sy Than saiu a cumprir a tarefa. A senhora Ran, confusa, perguntou o que ocorria. Zhao Ran lhe falou das visões, das faces e dos nomes. Sua mãe lembrou-se de outra coisa que o monge falado: as almas, separadas em vida, unidas na morte, haviam retornado. Foi um achado! Virou-se para o filho e falou: “Filho, o jovem era você em outra vida. A advogada Ly é a jovem que amou e da qual foi separado. Vocês retornaram nessa vida para terem a chance de viver seu amor!” Zhao Ran olhou para sua mãe como se ela estivesse louca.” Mãe, do que está falando? Que jovem, que outra vida? Isso não faz nenhum sentido!” . Enquanto falava, Sy Than chegou apressado. ” Chefe, o senhor não vai acreditar no que eu descobri! Os nomes que me forneceu são de pessoas reais, que viveram a trezentos e setenta anos atrás. Eram um jovem casal apaixonado, separado por uma rixa familiar. Ambos morreram de tristeza após a separação. Foram enterrados juntos, no bosque de pinheiros que ainda existe. O mais estranho é que os retratos pintados dos dois jovens se parecem ao senhor e a advogada Ly”. Zhao Ran ficou sem palavras. Sua mãe tinha razão. Muitas coisas estranhas haviam acontecido desde que entrará em contato corporal com a advogada Ly. Seria possível um tipo de reencarnação, um reencontro de almas? Desesperou-se. Mei Ly estava no centro cirúrgico, entre a vida e a morte. Se eram verdade as visões, não podia permitir que a tragédia se repetisse. ” Traga os melhores médicos, especialistas, cirurgiões com urgência! Devemos salvar a vida da advogada Ly a qualquer custo!”. Sy Than, às pressas, ligou para os hospitais de referência, solicitando a presença imediata dos melhores profissionais em medicina de urgência. Foi um caos! O hospital foi invadido por médicos vindos de todos os lugares, cidades e até da Capital. Mei Ly, atendida de urgência, tinha superado o período crítico. Restava saber quando acordaria. Foram três meses de cuidado intensivo. Zhao Ran deixara as empresas nas mãos de seus vice presidentes e diretores de confiança para ficar perto de Mei Ly. Sua memória como Kim Lan havia retornado. Ele se lembrava de tudo, até o mais mínimo detalhe. O amor, a dor, a separação, a tristeza, a morte, tudo sabia e sentia. Mei Ly continuava inconsciente, sem dar nenhuma resposta aos estímulos. Zhao Ran, em três meses, tinha perdido peso, o cabelo estava mais largo e a barba estava por fazer. Não se parecia em nada com o poderoso empresário que fazia todos tremerem a sua passagem. Uma noite, Zhao Ran se encontrava adormecido quando sentiu alguém lhe tocar. Levantou abruptamente e acendeu a luz. Mei Ly estava de olhos abertos, fixos nele. “Kim Lan, é você? Por que está tão diferente?” O coração de Zhao Ran deu um salto. Ela se lembrava! O silêncio da espera de trezentos e setenta anos não necessitava palavras. Mei Ly voltou a fechar os olhos, respirando calmamente. Zhao Ran saiu a chamar o médico, que veio, examinou e disse que a advogada Ly estava começando a despertar. Mais alguns dias e estaria completamente desperta. Zhao Ran agradeceu e voltou para junto da cama. Dez dias se passaram. Mei Ly não tinha voltado a despertar. Ao amanhecer do décimo primeiro dia, ela acordou. Lembrava-se de um longo sonho, de uma voz, um rosto, um nome. Olhou em volta, mas não viu ninguém. Zhao Ran havia saído para comprar café da manhã. Mei Ly tentou se levantar, mas sentiu tonturas e tornou a deitar-se. Neste momento, Zhao Ran retornou, e qual não foi a surpresa ao vê -la acordada. Mei Ly olhou fixamente para ele. Era o rosto do sonho, também o era a voz. Só não sabia se o nome seria o mesmo. ” Senhor Zhao Ran, Kim Lan, é você?” Zhao Ran não soube o que responder. Resolveu que o melhor seria contar a verdade. “Sim , sou Kim Lan, em uma outra vida, uma outra época, outro lugar. Nós conhecemos a trezentos e setenta anos, quando os Impérios ainda existiam. Nós apaixonamos, mas por um ódio do passado, nossas famílias não nos permitiram ficar juntos. Separados, morremos de tristeza e fomos enterrados juntos, no bosque dos pinheiros. Agora, renascemos para nos reencontrar e viver nosso amor. Você acredita em mim? Sei que parece loucura tudo isso, mas é a mais pura verdade. Se quiser comprovar, estou a disposição para me submeter a qualquer procedimento. Você esteve inconsciente por mais de três meses após o acidente que quase nos matou. A polícia descobriu que foi Vican Lee quem ordenou o atropelamento. Ele e seus cúmplices já estão presos. Seu escritório está sendo gerido por Aly Man e dois de meus funcionários mais competentes. Você salvou minha vida e meu coração. É a minha maneira de agradecer. Descanse agora. Vou chamar o médico para lhe examinar. ” Zhao Ran já estava na porta quando Mei Ly o chamou. Tinha se lembrado da proposta do amigo psiquiatra de Su Yan. Ela deu a Zhao Ran seu número e pediu que a contactasse para que viesse vê-la e também para que trouxesse seu amigo psiquiatra. Zhao Ran prometeu que o faria e saiu. Os médicos vieram, realizaram exames e testes e concluíram que a recuperação estava indo bem. A senhora Ran veio visitá-la , agradeceu por ter salvado a vida de seu filho e disse que já sabia sobre as almas reencarnadas. Mei Ly sorriu. Logo, saberia a verdade sobre toda essa estória. Aly Man e o pessoal do seu escritório também vieram visitar. Trouxeram cestas de frutas e presentes. Ficaram durante uma hora e meia falando sobre casos jurídicos. Assim que saíram, Su Yan e o psiquiatra chegaram. Mei Ly contou o que Zhao Ran tinha falado e o médico afirmou que a regressão era necessária para descobrir a verdade. Mei Ly concordou e o profissional iniciou o procedimento. Mei Ly recordou o primeiro encontro, a atração mútua, a proibição da família, os encontros às escondidas, as cartas, os bilhetes, as prendas, as juras de amor, a descoberta do caso pelas famílias, as punições, a separação, a tristeza e a morte. Lágrimas de dor e saudade rolavam por suas faces. Zhao Ran não mentira. Estavam destinados a se encontrar e a reviver seu amor. De volta do transe, agradeceu ao médico, dizendo que buscasse Aly Man para receber os valores correspondentes. Depois, pediu a Su Yan que ligasse para Zhao Ran, que ele viesse vê -la o mais breve possível. Mei Ly tinha ânsias de toca-lo, de sentir sua presença, seu cheiro, seu amor. Su Yan saiu, prometendo retornar. O resto do dia passou. Zhao Ran não apareceu. Mei Ly se culpou. Não tinha acreditado em suas palavras e agora o perdera novamente. Lutando com seus pensamentos, adormeceu. Despertou de madrugada, sentindo uma pressão no abdômen. Zhao Ran dormia, encostado em sua barriga. Ela tocou seus cabelos e percebeu que necessitavam um corte. A barba também estava cheia, necessitando aparar. Notou que ele tinha perdido peso. Imaginou o quanto deveria ter sofrido nestes três meses, vendo-a inconsciente. Continuou a acariciar sua cabeça até que Zhao Ran despertou. Eles se olharam longamente, um olhar de espera e de promessas. Tinham se reencontrado, as almas tinham se reconhecido. A partir de agora, nunca mais se separaram, estariam juntos, para todos o sempre.

Tito e o mistério de Tynay


Era uma vez Tito, rapaz de vinte e cinco anos, de porte alto e esguio, cabelos castanhos e olhos cinzentos. Vivia na cidade de Taha, no Reino de Katan, conhecido pelas minas de jade. Tito era caçador. Vivia da caça, pesca e dos alimentos que plantava e colhia. A vida simples o satisfazia, não pensava em nada mais. Um dia, o prefeito da cidade convocou os cidadãos a se reunirem na praça central. Tinha um comunicado a fazer. Tito, como morador de Taha, também compareceu. O prefeito explicou que, na cidade vizinha de Tynay, estavam ocorrendo mortes misteriosas. Cadáveres surgiam nas florestas, apresentando marcas de ataques de animais. O governante de Tynay havia pedido ajuda a todas as cidades próximas, pedindo que enviassem caçadores experientes para caçar o animal e deter as mortes. O prefeito explicou que, o Pânico entre a população era tão grande, que muitos já haviam deixado a cidade. Tito pensou se deveria se candidatar, mas não teve tempo de decidir por si só. Vyna, sua melhor amiga e também caçadora, agarrou-o pelo braço e o conduziu até onde o prefeito estava. ” Senhor, eu e meu amigo nos candidatamos a ir a Tynay,representando a cidade de Taha”. Tito, sem saber o que dizer, apenas assentiu, concordando. O prefeito, então, disse-lhes que se preparassem, pois partiriam no dia seguinte. Tito , resignado, voltou para casa e preparou sua mochila, seu arco e flecha, facas e outros equipamentos necessários. A manhã chegou rápido. Tito e Vyna se encontraram na praça , esperando o transporte que os levaria a cidade de Tynay. A viagem, de ceca de seis horas, transcorreu sem problemas. Lá chegando, observaram a presença de outros caçadores, vindos de cidades vizinhas. Foram recebidos pelo secretário do prefeito, que lhes explicou sobre acomodações e refeições. Falou também sobre as ocorrências, os locais onde os corpos tinham sido achados e os rastros encontrados. O secretário os convidou a se acomodarem e a fazerem uma refeição. Disse que o dia seguinte seria o início da caçada. Deviam descansar bem a noite. Tito, Vyna e os demais se dirigiram para o local determinado para as acomodações,  cenaram e depois se puseram a descansar. A noite e madrugada passaram. Ao raiar do dia, cerca de seis da manhã, todos se encontravam no ponto de referência para receber as orientações e referências sobre o caso. O secretário chegou, repassou os dados e desejou boa sorte aos caçadores. Todos se dirigiram a entrada da floresta. Chegando lá, resolveram se dividir em grupos, já que os cadáveres haviam sido encontrados em lugares diversos dentro da mata. Tito e Vyna formaram um grupo; os demais, outros três grupos. Combinaram de se encontrar na entrada da floresta às duas horas da tarde; caso alguém se perdesse ou encontrasse algo, deveria imitar um determinado pássaro, como um sinal. Decidido e combinado, partiram, cada qual para um lado. Tito e Vyna logo chegaram a um dos locais indicados e começaram a investigar. De cara, notaram algo estranho: o secretário tinha informado que os corpos tinham marcas de garras e mordidas, como de um animal, mas a análise dos rastros indicava outra coisa. Tito, desconfiado de que o assunto não era tão simples quanto aparentava, disse a Vyna que mantivessem segredo sobre suas suspeitas. Tito e Vyna descobriram que os rastros não eram de animal, mas de humanos. Um grito quebrou sua linha de pensamento. Tito e Vyna acudiram na direção de onde vinha o som. Um dos caçadores jazia ao chão, com um corte na perna esquerda. Havia muito sangue, mas nenhum rastro. Outros caçadores chegaram, imobilizaram a perna ferida e providenciaram uma maçã feita de paus e ramos para conduzir o ferido. Tito observava tudo, refletindo e formando um raciocínio sobre o assunto. Vyna, por sua vez, buscava ajudar no atendimento ao colega caçador. Um dos homens perguntou ao ferido quem o havia atacado. O homem respondeu que procurava pistas quando sentiu um empurrão e algo lhe raspando a perna. Disse que não chegou a ver pessoa ou animal. Era tudo muito confuso. Os caçadores retornaram para a cidade trazendo o homem ferido na maca improvisada, que foi levado imediatamente para tratamento médico. Cansados de tanto procurar, os caçadores voltaram para as acomodações e se prepararam para a manhã seguinte. No outro dia, a rotina se repetiu: grupos divididos, horário e senha combinados, saída em direções diferentes. Tito e Vyna tomaram um caminho diversos do da vez passada. Caminharam e chegaram a um desfiladeiro. No local, haviam sinais de fogueira recente e de que alguém tinha pernoitado ali. Tito e Vyna logo perceberam que suas suspeitas estavam corretas. Alguém tinha interesse em espantar os cidadãos da floresta e da cidade. Eles seguiram os rastros de farelo que saíam da fogueira e encontraram um acampamento vazio. Tendas armadas, objetos deixados pelo chão, indicavam que, ou bem voltariam , ou bem tinham saído com muita pressa. Examiram os achados , guardaram nas mochilas o que denominaram interessante e retornaram ao ponto de encontro. Não disseram nada sobre o acampamento. Sabiam que havia maldade por trás de tudo que ocorria em Tynay. Combinaram de investigar um pouco mais a fim de obter a verdade. No próximo dia, a mesma coisa: dividir, combinar e partir. Tito e Vyna seguiram o caminho inverso ao dos outros caçadores. Foram ao acampamento, esconderam-se entre algumas plantas e esperaram. Duas horas depois, alguém apareceu. Era um homem de estatura mediana, aparentando ter quarenta anos, calvo, vestindo roupas de funcionário local e portando uma sacola bem cheia. O homem olhou para um lado, para o outro, viu que não tinha ninguém, pos   a sacola no chão e a abriu. Dentro dela havia pepitas de ouro e prata, pedras preciosas, objetos de porcelana e moedas de cobre. Parecia um botim. O homem espalhou o conteúdo da sacola pelo solo , pegou um caderninho e começou a anotar. Tito e Vyna observavam a cena em silêncio. Mil coisas passavam por suas mentes. Teriam os ataques sido perpetrados por ladrões escondidos na floresta? Haveria outros funcionários envolvidos? O governo de Tynay era corrupto?  Dúvidas percorriam suas mentes, enquanto aguardavam o desenrolar dos acontecimentos. O homem, alheio ao fato de que estava sendo observado, continuava a catalogar os objetos. De repente, ele tirou da sacola um anel com desenho de um lobo, com dois rubis como olhos. Tito sentiu um arrepio. Já vira aquele anel antes, sabia a quem pertence: Valendra, a feiticeira de Monhana. Cruel , invejosa, sedenta de sangue e autora de várias atrocidades ao longo dos anos, Valendra trabalhava  para os ricos e nobres,  enquanto eles massacravam o povo. A história de vida de Valendra contava uma tragédia: por conflitos de terras, toda sua família foi massacrada. Só ela escapou. Tinha oito anos. A criança dócil e meiga que foram se transformou em uma alma cruel e desalmada. Aquele anel representava o símbolo de seu poder. Seria Valendra a cabeça por trás das mortes? Estaria a mando de alguém? O homem terminou de anotar, juntou os objetos e guardou a sacola na tenda. Depois, deixou o acampamento. Tito e Vyna saíram do esconderijo, entraram na tenda e pegaram a sacola. Examinaram o conteúdo e tornaram a guarda-la onde estava. Tito e Vyna retornaram ao ponto de encontro. Calados e pensativos, acompanharam o grupo de volta a cidade. Tito estava cansado, mas não conseguia conciliar o sono. Havia conhecido Valendra na infância, sabia do massacre e tudo o que ocorrera posteriormente. Tudo levava a crer que Valendra era a autora dos crimes. Tito tinha certeza disso. O que ele não entendia era o motivo de aterrorizar uma cidade inteira. Tynay era pequena, quase sem recursos,a população vivia basicamente da agricultura.  Não interessava em nada aos nobres que Valendra servia. Tito dormiu pouco essa noite. Ao dia seguinte, estava com enormes olheiras. Vyna reparou e indagou sobre o que ocorria. Tito deu uma desculpa e foi se juntar ao grupo para partirem. Tito e Vyna seguiram caminhos opostos aos das ocorrências. Voltaram ao acampamento, se esconderam e esperaram. O homem do dia anterior reapareceu. Dessa vez, não trazia nada. Tito saiu do esconderijo e o agarrou pelo pescoço. O homem, pego de surpresa, tentou reagir, mas Tito era maior e mais forte. Resignado, o homem se rendeu. Tito, sem o largar, perguntou:” Conhece Valendra, a feiticeira de Monhana? “”Não, senhor, não conheço”. “Se não conhece, como o anel dela foi parar em suas mãos?” “Roubei de um funcionário da prefeitura, senhor Vitan. O anel estava na gaveta do quarto dele, em sua residência. Não minto, senhor, por favor, acredite em mim!” O homenzinho estava assustado. Tito compreendeu que, na situação em que se encontrava, seria incapaz de mentir. Soltou o homenzinho, que caiu ao chão, arquejando. Vyna saiu do esconderijo e perguntou a Tito quem era Valendra. Tito disse que era uma conhecida dos tempos de criança, quando ele morava em outro lugar. Vyna observou o semblante de Tito. Algo estava muito errado. Tito era forte e seguro, não era pessoa de se abalar com qualquer coisa. O homenzinho, já recuperado, levantou -se e disse: “Se o senhor quiser, posso levá-lo até a casa do senhor Vitan”. Tito concordou e ele e Vyna seguiram o homem. Caminharam por um bom tempo e chegaram a uma residência de muros altos. Do lado de fora, Tito sentiu uma forte presença. Valendra estava no imóvel, disso tinha certeza. O homenzinho, tendo cumprido o acordo, correu para escapar. Tito e Vyna logo perceberam que a casa era segura, difícil de entrar. Como o homenzinho conseguiu assaltar a residência? Deveria ter alguma passagem secreta para dentro do imóvel. Começaram a procurar. Buscaram em cada canto e nada de achar. Um farfalhar nos arbustos captou -lhes a atenção. De repente, do meio da vegetação, surgiu um coelho. Parecia vir de dentro da casa. Tito e Vyna se aproximaram e examinaram o local. De fato, havia um buraco na parede, nas extremidades do imóvel. Eles observaram que era grande o suficiente para uma pessoa se esgueirar e entrar na residência. Tito afastou os arbustos e entrou. Vyna o seguiu. Depois de uns quinze minutos, avistaram o pátio interior do imóvel. Notaram que estava vazio, nenhum movimento, nem sons, só silêncio absoluto. Dentro da casa, Tito e Vyna seguiram buscando pistas. Um barulho no andar de cima fez com que ambos olhassem para cima. Tito ouviu uma voz, que reconheceu de imediato. Tinha acertado: Valendra estava no imóvel. Tito disse a Vyna que ficasse no térreo, pois ele iria verificar de onde vinha o som. Vyna teimou e esbravejou, mas Tito foi firme: acontecesse o que acontecesse, ela deveria ficar e não subir. Vyna disse a ele para ter cuidado. Tito prometeu e subiu as escadas em direção a origem da voz. Passou por dois aposentos, sem nada encontrar. Ao se aproximar do terceiro, a voz soou novamente. Valendra falava com alguém, mas não havia resposta. Tito caminhou devagar, sem ruído, e escutou o que dizia. Valendra afirmava que as pessoas de Tynay eram responsáveis pela morte de toda sua família e, agora, ela iria destruí-la, tranforma-la e m cidade fantasma, arrasar com todos, massacrar cada ser vivo, não deixar nada em pé, como fizeram com sua casa e seus pais e irmãos. Tito ouvia sem acreditar: Valendra pretendia acabar com a cidade inteira apenas por vingança, sem nem mesmo saber se eram culpados. Tito agarrou a faca e se preparou para entrar. Valendra, de costas, nada percebeu. Devagar, sem nenhum som, Tito adentrou ao quarto. Um homem, amarrado e amordaçado, jazia no chão. Tinha os olhos arregalados de medo. Valendra, sem se dar conta, continuava a falar dos planos para aniquilar Tynay. De repente, ouviu uma voz:”Pare já com isso, Valendra. Não pode culpar uma cidade inteira pelo que aconteceu com sua família. Sabe muito bem que não foi isso que ocorreu!”. Valendra reconheceu aquela voz: Tito, seu amigo de infância, companheiro de brincadeiras de uma época onde ainda era inocente e tinha esperanças no futuro. “Tito, você melhor do que ninguém sabe como me sinto em relação a isso, e vem e me pede para parar? Por quê eu deveria ouvi -lo?” Tito apelou mais uma vez para o bom senso.” Valendra, destruir Tynay não vai trazer sua família de volta! Afinal, não há provas que alguém ou outras pessoas da cidade tenham participado do massacre!” . Valendra riu e sem meias palavras pegou uma adaga, com inscrições na lâmina que pareciam parte de um ritual. Calma, com cerimônia, dirigiu-se ao homem no chão. ” Senhor Vitan, está na hora do sacrifício. Deve honrar meus pais e irmãos.” Valendra, apesar de todos os esforços deTito na tentativa de convence-la, não se deteria por nada. Ele, então, usou a única alternativa que possuía: agarrou a faca e, sem pestanejar, a lançou na direção de Valendra.  Atingida nas costas, Valendra caiu,vai adaga na mão. Tito tinha atingido um ponto vital, sem chances de recuperação. Espumando sangue, Valendra se virou e olhou para Tito. ” Meu melhor amigo, companheiro de infância, tinha que ser você a pessoa que me mataria. Essa é uma grande ironia do destino. Estou partindo sem ter concretado minha vingança. Espero que, ao reunir-me com meus pais e irmãos, eles não estejam decepcionados comigo. Adeus, meu amigo”. Assim dizendo, Valendra espirrou sangue, estirou o corpo no chão e faleceu. Tito observava tudo com os olhos marejados. Acabaram de matar sua amiga de infância, mas a menina doce e meiga que conheceram não mais existia há muito tempo. O homem jazia no chão. Tito recuperou sua faca, cortou as cordas e o libertou. O homem, chamado Vitan, agradeceu. Ele contou que conheceram Valendra através de um amigo, quando estava buscando médicos para tratar a enfermidade de sua irmã. Disse que Valendra, após tratar sua irmã, pediu para ficar um tempo hospedada em sua casa. Não imaginava que ela teria um plano tão macabro. No térreo, Vyna se preocupava. Tinha passado muito tempo e Tito ainda não aparecia. Passos vindos de cima chamaram sua atenção. Tito e o senhor Vitan desciam as escadas em direção ao térreo. Vyna correu a perguntar o que tinha ocorrido. Tito lhe contou sobre Valendra e seus planos de vingança. O mistério da floresta estava resolvido. Poderiam voltar para casa. Deixando o senhor Vitan encarregado de contactar as autoridades locais, Tito e Vyna retornaram ao lugar das acomodações. Vyna perguntou se Tito não pensava em recolher a recompensa. Ele disse que, para ele, não fazia diferença. Havia resolvido o caso, era caçador, não detetive, as ocorrências nada tinham a ver com animais selvagens. Vyna se calou. Conhecia bem a personalidade do amigo. Tito acabara de matar sua companheira de brincadeiras infantis, claro que não se sentia bem com isso. No quarto, Tito relembrava o ocorrido, se perguntava se deveria ter insistido mais, ter feito mais alguma coisa para evitar sua morte, mas percebeu que Valendra, no estado em que se encontrava, não ouviria nada, nem ninguém, não pararia até conseguir o que queria. Com os pensamentos dominando sua mente, adormeceu. Sonhou com a garota de tranças, vestido azul, sorrindo e dando adeus. Foi a última vez que viu Valendra. No dia seguinte, ele e Vyna arrumaram as bagagens, se despediram do secretário e dos outros caçadores e retornaram para casa. Foram recebidos como heróis pelo prefeito e a população. Depois de um almoço comemorativo, Tito e Vyna se dirigiram para suas casas. Tito continuou com sua rotina. A cidade continuou a crescer. A vida seguiu seu curso, caminhando nas areias do tempo.

A Lenda da Floresta Sussurrante

Era uma vez um jovem chamado Kim Mian. Mi-an tinha 18 anos, de porte alto, esguio, cabelos longos, pretos e olhos castanhos. Kim Mian vivia sozinho, não tinha irmãos nem outros parentes. Kim Mian caçava, pescava, colhia frutas silvestres, mas sempre sozinho. Tinha ficado a hora de se mudar para a floresta para viver afastado de todo mundo. Kim Mian não tinha amigos, nem pensava. Ficava próximo a um rio. Ele tinha amizade com os animais e cuidava deles como se fossem família. A magia do amor fluía e encantava. Kim  Mian,  acostumado a viver só,  sem companhia humana,  não sabia de sentimentos ou desejos.  Vivia livre de tais preocupações  e emoções. Não sentia falta,  nem tinha vontade de experimentar.  Só que,  as vezes,  o destino prega peças,  armadilhas,  tentações.  Kim Mian estava, um dia,  caçando,  quando,  de repente,  escutou um grito. Alguém pedia ajuda. Ele correu na direção de  onde vinha o som. Lá chegando, viu uma jovem pendurada em uma árvore.  Perto dali, um lobo se fazia presente. Kim Mian o reconheceu.  Era Kaynan, líder do clã dos lobos brancos.  Não era agressivo,  só atacava para se defender.  Kim Mian se aproximou devagar e  o chamou. ” Kainan,  afaste-se, não a assuste. Diga-me o que aconteceu. ” ” Essa humana tentou levar um dos filhotes da tribo.  Eu a persegui a fim de lhe dar uma lição “. Kim Mian entendeu.  Kainan agia em defesa do clã.  ” Deixe-me ajudá-la a descer para que explique a suas razões “. Kainan assentiu e se afastou.  Kim Mian se aproximou da árvore e estendeu a mão.  “Vou ajudar você.  Depois deve explicar o porquê de roubar o filhote “. A jovem aceitou a ajuda e desceu da árvore.  Era bonita,  mas havia ofendido um dos senhores da Floresta.  O que tinha feito não podia ser esquecido.  A jovem,  de nome Ann Ly, tinha cabelos longos castanhos,  olhos verdes e estatura mediana. Tinha uma expressão confusa,  como se não compreendesse o que havia feito.  Kim Mian esperou por sua palavra.  Ann Ly tentou explicar.  ” Sou estudante,  vivo no povoado de Hannay, ao Sul. Ia de viagem a Otyl quando me perdi e acabei aqui, nesta floresta. Vi o filhote e achei que seria um bom animal de estimação.  Não sabia que era proibido tocar e levar animais da floresta “. Kim Mian não se convenceu. Alguma coisa nela o fazia pensar que havia mais, algo oculto,  dissimulado. Ela continuou. “Senhor,  po favor,  não me castigue. Não sou ma pessoa,  apenas buscava uma companhia e encontrar o caminho de volta “. Kainan bufou. ” Suas desculpas não me convencem.  Você ofendeu as Leis da Floresta e deve pagar o preço por isso . Kim Mian a levará para o caminho de volta ao povoado de Hannay, mas nunca mais deverá voltar aqui, senão pagará com a vida.”  Kim Mian  traduziu a fala de Kainan.  A jovem arregalou os olhos de medo. Recolhendo sua mochila,  pos- se a seguir Kim Mian. Ele a escoltou até a entrada da estrada e repetiu a advertência: não deveria voltar a Floresta ou perderia a vida. Após deixá-la,  Kim Mian  retornou. Kainan continuava parado,  esperando. “Devemos nos reunir. Muito estranho o que aconteceu agora. Alguém está tentando descobrir nossos segredos. Precisamos planejar nossa defesa”. Kim Mian concordou. Marcaram um encontro com os líderes dos clas,  a fim de repassar e discutir sobre o ocorrido. O assombro foi geral. A Floresta estava em perigo.  “Precisamos nos organizar , defender o território.  Não podemos permitir que estranhos entrem e descubram nossos segredos “. Começaram a planejar estratégias de ataque e defesa. Cada tribo ficou responsável por uma parte. Planos concluídos,  encerraram a reunião e retornaram aos seus lugares.  Kim Mian,  o único humano do grupo,  foi nomeado guardião. Seu trabalho era vigiar e alertar sobre qualquer movimento estranho. Os dias passaram  sem novidades.  Ninguém,  nem nada fora de lugar apareceu.  Depois de dois meses,  não havia sinal de invasores.  A vida cotidiana seguia seu curso.  Um dia,  Kim Mian se banhava no Rio quando ouviu uma voz. Posso me aproximar,  por favor? Preciso de ajuda. ” Era Ann Ly. Havia retornado,  mesmo sabendo da punição e do risco de morte. Kim Mian saiu da água e se enxugou. Ann Ly observava,  admirando o belo rapaz.  “Não deveria ter vindo.  O que quer agora?” “Meu povoado foi atacado.  Disseram que,  se não conseguirmos a Pérola da Razão,  mataram todos os habitantes,  inclusive idosos e crianças.  Não sabemos a quem recorrer , nem a quem pedir ajuda. Vim em busca de auxílio, não me expulse, por favor,  eu imploro!”. Kim Mian sabia que a Pérola da Razão era um dos tesouros do clã dos Tigres Negros.  Alguém sabia disso,  mas quem  e como haviam descoberto? ” Vou conversar com as tribos para ver como podemos ajudar. No momento,  é o único que posso fazer “. A jovem agradeceu e se afastou. Precisava encontrar um local para passar a noite. Pensou em uma caverna,  mas onde? Resolveu dormir sob as estrelas. Retirou da mochila uma coberta, estendeu no chão e deitou-se. Teria que suportar o frio,  o vento e os insetos,  mas fazia isso pelo bem do povoado. Estava tudo bem,  ela se resignou.  Kim Mian viu a cena,  mas nada disse. Sabia da proibição,  portanto não poderia ajudar. Mandou um recado ao patriarca por Lany, o pássaro mensageiro. A resposta veio rápida. Deviam resgatar os habitantes e descobrir quem queria se apossar dos tesouros da Floresta. A coisa foi planejada. Partiriam ao dia seguinte. Ann Ly dormia, sem imaginar o que ocorreria. Amanheceu. As tribos, seus convocados, Kim Mian e Ann Ly se puseram em marcha. O povoado de Hannay ficava ao Sul, cerca de trinta quilômetros. Era pequeno,  vivia da agricultura,  não tinha grandes riquezas. Não  se entendia o porquê do ataque e da exigência. O que tinham a ver com a Floresta? Todas as aldeias e povoados cercanos conheciam a proibição: ninguém poderia se aproximar,  nem entrar na Floresta Sussurrante. Seria o preço de uma vida.  Quem seria tão ousado? O grupo se aproximou das cercanias do povoado. Não entraram,  ficaram a observar a movimentação. Havia um grupo de sentinelas na entrada,  mas suas armas eram de pouca letalidade. Reconhecendo o símbolo  em suas vestimenta, souberam a quem enfrentavam: Maxi Kan,  Senhor da Montanha da Escuridão. Apenas ele seria ousado o suficiente para desafiar os senhores da Floresta Sussurrante. Desta vez, Maxi Kan tinha ultrapassado todos os limites do aceitável. Sequestrar um povoado inteiro e ameaçar a vida dos habitantes era o extremo da crueldade e da insensatez. Sem ruído,  aguardaram o momento propício. O plano era resgatar o povoado e acabar com Maxi Kan de uma vez por todas. Ann Ly estava apreensiva.  Sua família havia sido aprisionada em um quarto fechado, sem comida,  nem água. Seus avós já estavam em idade avançada e não suportariam por muito tempo. Kim Mian a tranquilizou: tudo daria certo,  ela não precisava se preocupar. A noite chegou. Era hora. Um grupo dominou os sentinelas; outro, entrou a resgatar os habitantes. Kim Mian e Ann Ly correram a encontrar o quarto onde sua família estava. Libertos os habitantes,  foram instruídos por Kim Mian a se esconderem nas montanhas de fogo,  lugar onde Maxi Kan não os encontraria. Ann Ly partiu com sua família. Nem ela,  nem os outros habitantes compreendiam como animais podiam agir como humanos,  que tipo de magia era essa. Depois da saída dos habitantes,  ficaram no povoado apenas Maxi Kan e seus homens e Kim Mian e os animais da Floresta Sussurrante.  “Apenas um homem,  melhor dizendo,  um rapazola que nem trocou as fraldas ainda,  ficou para me enfrentar? Você e esse bando de animais,  sujos, fedorentos, sem nenhuma arma ou proteção? Quer realmente que eu perca meu tempo? Não me faça rir “. Kim Mian não respondeu. Maxi Kan não fazia ideia de quem estava enfrentando,  não sabia da magia que reinava na Floresta Sussurrante e que seus animais não eram comuns. Maxi Kan continuou seu discurso prepotente e desafiador,  pondo à prova a paciência de Kim Mian. Depois de muito falar e sem obter resposta,  Maxi Kan se enfureceu e,  junto com seus soldados,  partiu para o ataque. Inesperadamente,  todas as tentativas de atingir Kim Mian e os outros não foram bem sucedidas. Ninguém entendia o porquê de tal coisa. Tentaram e tentaram várias vezes,  sem sucesso. Os homens de Maxi Kan, cansados,  desabaram ao chão. Seu líder,  ainda de pé,  esbravejava,  xingava, praguejava e se retorcia,  mas nada disso adiantava. A batalha estava perdida. Os líderes da Floresta Sussurrante haviam decidido que Maxi Kan não deveria mais viver.  Ele,  com sua maldade,  havia espalhado o terror entre aldeias e povoados. Tinha matado,  roubado, saqueado,  atentado contra a moralidade e tantos outros crimes. Coube a Kim Mian,  o único humano da Floresta,  executar a decisão. Com um golpe certeiro no pescoço,  acabou para sempre com o reinado do senhor das sombras. O povo estava livre da tirania. Sem se despedir,  Kim Mian e os outros voltaram para a Floresta,  para a vida simples,  longe dos olhos humanos.  Kim Mian continuou com eles, na sua cabana,  no seu ofício de caçador e pescador e no cuidado com os animais da Floresta Sussurrante. Não pensava em Ann Ly,  nem o que havia acontecido com ela. Ann Ly,  por outro lado,  sempre lembrava de Kim Mian,  o belo rapaz que tinha salvado sua vida e de sua família. Nunca mais o viu, nem soube dele. A Floresta Sussurrante continuou proibida e as lendas sobre ela e seus segredos se perpetuaram,  deixando um aura de mistério no ar por séculos e séculos. Ann Ly,  até morrer,  não esqueceu Kim Mian.  Ele, por outro lado,  por viver na Floresta Sussurrante, tornou-se imortal,  sobrevivendo ao tempo e à memória.