Era uma vez um jovem chamado Kim Mian. Mi-an tinha 18 anos, de porte alto, esguio, cabelos longos, pretos e olhos castanhos. Kim Mian vivia sozinho, não tinha irmãos nem outros parentes. Kim Mian caçava, pescava, colhia frutas silvestres, mas sempre sozinho. Tinha ficado a hora de se mudar para a floresta para viver afastado de todo mundo. Kim Mian não tinha amigos, nem pensava. Ficava próximo a um rio. Ele tinha amizade com os animais e cuidava deles como se fossem família. A magia do amor fluía e encantava. Kim Mian, acostumado a viver só, sem companhia humana, não sabia de sentimentos ou desejos. Vivia livre de tais preocupações e emoções. Não sentia falta, nem tinha vontade de experimentar. Só que, as vezes, o destino prega peças, armadilhas, tentações. Kim Mian estava, um dia, caçando, quando, de repente, escutou um grito. Alguém pedia ajuda. Ele correu na direção de onde vinha o som. Lá chegando, viu uma jovem pendurada em uma árvore. Perto dali, um lobo se fazia presente. Kim Mian o reconheceu. Era Kaynan, líder do clã dos lobos brancos. Não era agressivo, só atacava para se defender. Kim Mian se aproximou devagar e o chamou. ” Kainan, afaste-se, não a assuste. Diga-me o que aconteceu. ” ” Essa humana tentou levar um dos filhotes da tribo. Eu a persegui a fim de lhe dar uma lição “. Kim Mian entendeu. Kainan agia em defesa do clã. ” Deixe-me ajudá-la a descer para que explique a suas razões “. Kainan assentiu e se afastou. Kim Mian se aproximou da árvore e estendeu a mão. “Vou ajudar você. Depois deve explicar o porquê de roubar o filhote “. A jovem aceitou a ajuda e desceu da árvore. Era bonita, mas havia ofendido um dos senhores da Floresta. O que tinha feito não podia ser esquecido. A jovem, de nome Ann Ly, tinha cabelos longos castanhos, olhos verdes e estatura mediana. Tinha uma expressão confusa, como se não compreendesse o que havia feito. Kim Mian esperou por sua palavra. Ann Ly tentou explicar. ” Sou estudante, vivo no povoado de Hannay, ao Sul. Ia de viagem a Otyl quando me perdi e acabei aqui, nesta floresta. Vi o filhote e achei que seria um bom animal de estimação. Não sabia que era proibido tocar e levar animais da floresta “. Kim Mian não se convenceu. Alguma coisa nela o fazia pensar que havia mais, algo oculto, dissimulado. Ela continuou. “Senhor, po favor, não me castigue. Não sou ma pessoa, apenas buscava uma companhia e encontrar o caminho de volta “. Kainan bufou. ” Suas desculpas não me convencem. Você ofendeu as Leis da Floresta e deve pagar o preço por isso . Kim Mian a levará para o caminho de volta ao povoado de Hannay, mas nunca mais deverá voltar aqui, senão pagará com a vida.” Kim Mian traduziu a fala de Kainan. A jovem arregalou os olhos de medo. Recolhendo sua mochila, pos- se a seguir Kim Mian. Ele a escoltou até a entrada da estrada e repetiu a advertência: não deveria voltar a Floresta ou perderia a vida. Após deixá-la, Kim Mian retornou. Kainan continuava parado, esperando. “Devemos nos reunir. Muito estranho o que aconteceu agora. Alguém está tentando descobrir nossos segredos. Precisamos planejar nossa defesa”. Kim Mian concordou. Marcaram um encontro com os líderes dos clas, a fim de repassar e discutir sobre o ocorrido. O assombro foi geral. A Floresta estava em perigo. “Precisamos nos organizar , defender o território. Não podemos permitir que estranhos entrem e descubram nossos segredos “. Começaram a planejar estratégias de ataque e defesa. Cada tribo ficou responsável por uma parte. Planos concluídos, encerraram a reunião e retornaram aos seus lugares. Kim Mian, o único humano do grupo, foi nomeado guardião. Seu trabalho era vigiar e alertar sobre qualquer movimento estranho. Os dias passaram sem novidades. Ninguém, nem nada fora de lugar apareceu. Depois de dois meses, não havia sinal de invasores. A vida cotidiana seguia seu curso. Um dia, Kim Mian se banhava no Rio quando ouviu uma voz. Posso me aproximar, por favor? Preciso de ajuda. ” Era Ann Ly. Havia retornado, mesmo sabendo da punição e do risco de morte. Kim Mian saiu da água e se enxugou. Ann Ly observava, admirando o belo rapaz. “Não deveria ter vindo. O que quer agora?” “Meu povoado foi atacado. Disseram que, se não conseguirmos a Pérola da Razão, mataram todos os habitantes, inclusive idosos e crianças. Não sabemos a quem recorrer , nem a quem pedir ajuda. Vim em busca de auxílio, não me expulse, por favor, eu imploro!”. Kim Mian sabia que a Pérola da Razão era um dos tesouros do clã dos Tigres Negros. Alguém sabia disso, mas quem e como haviam descoberto? ” Vou conversar com as tribos para ver como podemos ajudar. No momento, é o único que posso fazer “. A jovem agradeceu e se afastou. Precisava encontrar um local para passar a noite. Pensou em uma caverna, mas onde? Resolveu dormir sob as estrelas. Retirou da mochila uma coberta, estendeu no chão e deitou-se. Teria que suportar o frio, o vento e os insetos, mas fazia isso pelo bem do povoado. Estava tudo bem, ela se resignou. Kim Mian viu a cena, mas nada disse. Sabia da proibição, portanto não poderia ajudar. Mandou um recado ao patriarca por Lany, o pássaro mensageiro. A resposta veio rápida. Deviam resgatar os habitantes e descobrir quem queria se apossar dos tesouros da Floresta. A coisa foi planejada. Partiriam ao dia seguinte. Ann Ly dormia, sem imaginar o que ocorreria. Amanheceu. As tribos, seus convocados, Kim Mian e Ann Ly se puseram em marcha. O povoado de Hannay ficava ao Sul, cerca de trinta quilômetros. Era pequeno, vivia da agricultura, não tinha grandes riquezas. Não se entendia o porquê do ataque e da exigência. O que tinham a ver com a Floresta? Todas as aldeias e povoados cercanos conheciam a proibição: ninguém poderia se aproximar, nem entrar na Floresta Sussurrante. Seria o preço de uma vida. Quem seria tão ousado? O grupo se aproximou das cercanias do povoado. Não entraram, ficaram a observar a movimentação. Havia um grupo de sentinelas na entrada, mas suas armas eram de pouca letalidade. Reconhecendo o símbolo em suas vestimenta, souberam a quem enfrentavam: Maxi Kan, Senhor da Montanha da Escuridão. Apenas ele seria ousado o suficiente para desafiar os senhores da Floresta Sussurrante. Desta vez, Maxi Kan tinha ultrapassado todos os limites do aceitável. Sequestrar um povoado inteiro e ameaçar a vida dos habitantes era o extremo da crueldade e da insensatez. Sem ruído, aguardaram o momento propício. O plano era resgatar o povoado e acabar com Maxi Kan de uma vez por todas. Ann Ly estava apreensiva. Sua família havia sido aprisionada em um quarto fechado, sem comida, nem água. Seus avós já estavam em idade avançada e não suportariam por muito tempo. Kim Mian a tranquilizou: tudo daria certo, ela não precisava se preocupar. A noite chegou. Era hora. Um grupo dominou os sentinelas; outro, entrou a resgatar os habitantes. Kim Mian e Ann Ly correram a encontrar o quarto onde sua família estava. Libertos os habitantes, foram instruídos por Kim Mian a se esconderem nas montanhas de fogo, lugar onde Maxi Kan não os encontraria. Ann Ly partiu com sua família. Nem ela, nem os outros habitantes compreendiam como animais podiam agir como humanos, que tipo de magia era essa. Depois da saída dos habitantes, ficaram no povoado apenas Maxi Kan e seus homens e Kim Mian e os animais da Floresta Sussurrante. “Apenas um homem, melhor dizendo, um rapazola que nem trocou as fraldas ainda, ficou para me enfrentar? Você e esse bando de animais, sujos, fedorentos, sem nenhuma arma ou proteção? Quer realmente que eu perca meu tempo? Não me faça rir “. Kim Mian não respondeu. Maxi Kan não fazia ideia de quem estava enfrentando, não sabia da magia que reinava na Floresta Sussurrante e que seus animais não eram comuns. Maxi Kan continuou seu discurso prepotente e desafiador, pondo à prova a paciência de Kim Mian. Depois de muito falar e sem obter resposta, Maxi Kan se enfureceu e, junto com seus soldados, partiu para o ataque. Inesperadamente, todas as tentativas de atingir Kim Mian e os outros não foram bem sucedidas. Ninguém entendia o porquê de tal coisa. Tentaram e tentaram várias vezes, sem sucesso. Os homens de Maxi Kan, cansados, desabaram ao chão. Seu líder, ainda de pé, esbravejava, xingava, praguejava e se retorcia, mas nada disso adiantava. A batalha estava perdida. Os líderes da Floresta Sussurrante haviam decidido que Maxi Kan não deveria mais viver. Ele, com sua maldade, havia espalhado o terror entre aldeias e povoados. Tinha matado, roubado, saqueado, atentado contra a moralidade e tantos outros crimes. Coube a Kim Mian, o único humano da Floresta, executar a decisão. Com um golpe certeiro no pescoço, acabou para sempre com o reinado do senhor das sombras. O povo estava livre da tirania. Sem se despedir, Kim Mian e os outros voltaram para a Floresta, para a vida simples, longe dos olhos humanos. Kim Mian continuou com eles, na sua cabana, no seu ofício de caçador e pescador e no cuidado com os animais da Floresta Sussurrante. Não pensava em Ann Ly, nem o que havia acontecido com ela. Ann Ly, por outro lado, sempre lembrava de Kim Mian, o belo rapaz que tinha salvado sua vida e de sua família. Nunca mais o viu, nem soube dele. A Floresta Sussurrante continuou proibida e as lendas sobre ela e seus segredos se perpetuaram, deixando um aura de mistério no ar por séculos e séculos. Ann Ly, até morrer, não esqueceu Kim Mian. Ele, por outro lado, por viver na Floresta Sussurrante, tornou-se imortal, sobrevivendo ao tempo e à memória.
A Lenda da Floresta Sussurrante

Livro. Por Kayla Ribeiro.
Era uma vez, num bairro tranquilo onde as calçadas eram sempre varridas e os jardins cheiravam a jasmim, uma cadelinha chamada Alexia. Ela não era grande; na verdade, era minúscula. Seu pelo era branco como a neve recém-caída, macio e impecável, contrastando fortemente com seus grandes olhos escuros, profundos como poços de noite sem lua. Esses olhos, porém, não demonstravam medo. Eles brilhavam com uma inteligência aguda e uma determinação feroz.Alexia era conhecida por todos como “a pequena valente”. Enquanto cães maiores, como o Rottweiler do Sr. Mendes ou o Pastor Alemão da Dona Clara, preferiam descansar à sombra das árvores, Alexia patrulhava o quarteirão. Seu porte pequeno enganava muitos. Quem olhasse para ela veria apenas uma bolinha de algodão inofensiva. Mas quem convivia com ela sabia que, dentro daquele corpo diminuto, habitava o coração de um leão.Certa tarde de outono, quando o vento começava a uivar entre as telhas, um evento inesperado abalou a paz do bairro. O gatinho Mimi, travesso e curioso, havia subido em uma árvore antiga no parque central para perseguir uma borboleta azul. No entanto, ao tentar descer, Mimi escorregou e ficou preso num galho alto e fino, que balançava perigosamente com a rajada de vento. Os donos do gato estavam desesperados, chamando por ajuda, mas a árvore era alta demais para ser escalada sem equipamentos, e os bombeiros demorariam.Os cães grandes latiram, inquietos, mas nenhum se atreveu a subir. A estrutura dos galhos não suportaria seu peso. Foi então que Alexia se aproximou. Ela olhou para cima, calculou a distância com seus olhos escuros e penetrantes, e sem hesitar, começou a escalar. Sua leveza era sua maior arma. Galho por galho, ela subiu com uma agilidade surpreendente, suas patinhas brancas encontrando apoio onde outros nem sequer ousariam pisar.Ao chegar perto de Mimi, o gatinho tremia de frio e medo. Alexia não latiu. Em vez disso, emitiu um som suave, um ronronar canino tranquilizador. Ela se posicionou cuidadosamente num galho mais robusto logo abaixo do felino e esperou. Com paciência e coragem, incentivou Mimi a pular em suas costas. O salto foi arriscado, mas a confiança que Alexia inspirava fez o impossível acontecer. Mimi aterrisou suavemente sobre o dorso da cadelinha, agarrando-se ao pelo branco dela.A descida foi lenta e meticulosa. Alexia movia-se com a precisão de uma acrobata, protegendo seu passageiro improvável de cada oscilação do vento. Quando suas patas tocaram o chão firme da grama, uma explosão de aplausos e alívio tomou conta do parque. Os donos de Mimi choravam de alegria, abraçando o gato e depois a heroína de quatro patas.Naquela noite, Alexia não recebeu medalhas de ouro nem faixas de honra. Recebeu algo muito melhor: ossinhos crocantes, carinho infinito e o respeito silencioso dos gigantes do bairro. Ela aprendeu, e ensinou a todos, que a verdadeira bravura não se mede pelo tamanho dos músculos ou pela profundidade do latido, mas pela disposição de agir quando outros recuam. Alexia, a cadelinha branca de olhos escuros, provou que heróis vêm em todos os tamanhos, e que, às vezes, os maiores feitos são realizados pelos corpos mais leves.
Aly Muan, o Guardião de Okytan
Conto de ficção, por Kayla Ribeiro.