Era uma vez Tito, rapaz de vinte e cinco anos, de porte alto e esguio, cabelos castanhos e olhos cinzentos. Vivia na cidade de Taha, no Reino de Katan, conhecido pelas minas de jade. Tito era caçador. Vivia da caça, pesca e dos alimentos que plantava e colhia. A vida simples o satisfazia, não pensava em nada mais. Um dia, o prefeito da cidade convocou os cidadãos a se reunirem na praça central. Tinha um comunicado a fazer. Tito, como morador de Taha, também compareceu. O prefeito explicou que, na cidade vizinha de Tynay, estavam ocorrendo mortes misteriosas. Cadáveres surgiam nas florestas, apresentando marcas de ataques de animais. O governante de Tynay havia pedido ajuda a todas as cidades próximas, pedindo que enviassem caçadores experientes para caçar o animal e deter as mortes. O prefeito explicou que, o Pânico entre a população era tão grande, que muitos já haviam deixado a cidade. Tito pensou se deveria se candidatar, mas não teve tempo de decidir por si só. Vyna, sua melhor amiga e também caçadora, agarrou-o pelo braço e o conduziu até onde o prefeito estava. ” Senhor, eu e meu amigo nos candidatamos a ir a Tynay,representando a cidade de Taha”. Tito, sem saber o que dizer, apenas assentiu, concordando. O prefeito, então, disse-lhes que se preparassem, pois partiriam no dia seguinte. Tito , resignado, voltou para casa e preparou sua mochila, seu arco e flecha, facas e outros equipamentos necessários. A manhã chegou rápido. Tito e Vyna se encontraram na praça , esperando o transporte que os levaria a cidade de Tynay. A viagem, de ceca de seis horas, transcorreu sem problemas. Lá chegando, observaram a presença de outros caçadores, vindos de cidades vizinhas. Foram recebidos pelo secretário do prefeito, que lhes explicou sobre acomodações e refeições. Falou também sobre as ocorrências, os locais onde os corpos tinham sido achados e os rastros encontrados. O secretário os convidou a se acomodarem e a fazerem uma refeição. Disse que o dia seguinte seria o início da caçada. Deviam descansar bem a noite. Tito, Vyna e os demais se dirigiram para o local determinado para as acomodações, cenaram e depois se puseram a descansar. A noite e madrugada passaram. Ao raiar do dia, cerca de seis da manhã, todos se encontravam no ponto de referência para receber as orientações e referências sobre o caso. O secretário chegou, repassou os dados e desejou boa sorte aos caçadores. Todos se dirigiram a entrada da floresta. Chegando lá, resolveram se dividir em grupos, já que os cadáveres haviam sido encontrados em lugares diversos dentro da mata. Tito e Vyna formaram um grupo; os demais, outros três grupos. Combinaram de se encontrar na entrada da floresta às duas horas da tarde; caso alguém se perdesse ou encontrasse algo, deveria imitar um determinado pássaro, como um sinal. Decidido e combinado, partiram, cada qual para um lado. Tito e Vyna logo chegaram a um dos locais indicados e começaram a investigar. De cara, notaram algo estranho: o secretário tinha informado que os corpos tinham marcas de garras e mordidas, como de um animal, mas a análise dos rastros indicava outra coisa. Tito, desconfiado de que o assunto não era tão simples quanto aparentava, disse a Vyna que mantivessem segredo sobre suas suspeitas. Tito e Vyna descobriram que os rastros não eram de animal, mas de humanos. Um grito quebrou sua linha de pensamento. Tito e Vyna acudiram na direção de onde vinha o som. Um dos caçadores jazia ao chão, com um corte na perna esquerda. Havia muito sangue, mas nenhum rastro. Outros caçadores chegaram, imobilizaram a perna ferida e providenciaram uma maçã feita de paus e ramos para conduzir o ferido. Tito observava tudo, refletindo e formando um raciocínio sobre o assunto. Vyna, por sua vez, buscava ajudar no atendimento ao colega caçador. Um dos homens perguntou ao ferido quem o havia atacado. O homem respondeu que procurava pistas quando sentiu um empurrão e algo lhe raspando a perna. Disse que não chegou a ver pessoa ou animal. Era tudo muito confuso. Os caçadores retornaram para a cidade trazendo o homem ferido na maca improvisada, que foi levado imediatamente para tratamento médico. Cansados de tanto procurar, os caçadores voltaram para as acomodações e se prepararam para a manhã seguinte. No outro dia, a rotina se repetiu: grupos divididos, horário e senha combinados, saída em direções diferentes. Tito e Vyna tomaram um caminho diversos do da vez passada. Caminharam e chegaram a um desfiladeiro. No local, haviam sinais de fogueira recente e de que alguém tinha pernoitado ali. Tito e Vyna logo perceberam que suas suspeitas estavam corretas. Alguém tinha interesse em espantar os cidadãos da floresta e da cidade. Eles seguiram os rastros de farelo que saíam da fogueira e encontraram um acampamento vazio. Tendas armadas, objetos deixados pelo chão, indicavam que, ou bem voltariam , ou bem tinham saído com muita pressa. Examiram os achados , guardaram nas mochilas o que denominaram interessante e retornaram ao ponto de encontro. Não disseram nada sobre o acampamento. Sabiam que havia maldade por trás de tudo que ocorria em Tynay. Combinaram de investigar um pouco mais a fim de obter a verdade. No próximo dia, a mesma coisa: dividir, combinar e partir. Tito e Vyna seguiram o caminho inverso ao dos outros caçadores. Foram ao acampamento, esconderam-se entre algumas plantas e esperaram. Duas horas depois, alguém apareceu. Era um homem de estatura mediana, aparentando ter quarenta anos, calvo, vestindo roupas de funcionário local e portando uma sacola bem cheia. O homem olhou para um lado, para o outro, viu que não tinha ninguém, pos a sacola no chão e a abriu. Dentro dela havia pepitas de ouro e prata, pedras preciosas, objetos de porcelana e moedas de cobre. Parecia um botim. O homem espalhou o conteúdo da sacola pelo solo , pegou um caderninho e começou a anotar. Tito e Vyna observavam a cena em silêncio. Mil coisas passavam por suas mentes. Teriam os ataques sido perpetrados por ladrões escondidos na floresta? Haveria outros funcionários envolvidos? O governo de Tynay era corrupto? Dúvidas percorriam suas mentes, enquanto aguardavam o desenrolar dos acontecimentos. O homem, alheio ao fato de que estava sendo observado, continuava a catalogar os objetos. De repente, ele tirou da sacola um anel com desenho de um lobo, com dois rubis como olhos. Tito sentiu um arrepio. Já vira aquele anel antes, sabia a quem pertence: Valendra, a feiticeira de Monhana. Cruel , invejosa, sedenta de sangue e autora de várias atrocidades ao longo dos anos, Valendra trabalhava para os ricos e nobres, enquanto eles massacravam o povo. A história de vida de Valendra contava uma tragédia: por conflitos de terras, toda sua família foi massacrada. Só ela escapou. Tinha oito anos. A criança dócil e meiga que foram se transformou em uma alma cruel e desalmada. Aquele anel representava o símbolo de seu poder. Seria Valendra a cabeça por trás das mortes? Estaria a mando de alguém? O homem terminou de anotar, juntou os objetos e guardou a sacola na tenda. Depois, deixou o acampamento. Tito e Vyna saíram do esconderijo, entraram na tenda e pegaram a sacola. Examinaram o conteúdo e tornaram a guarda-la onde estava. Tito e Vyna retornaram ao ponto de encontro. Calados e pensativos, acompanharam o grupo de volta a cidade. Tito estava cansado, mas não conseguia conciliar o sono. Havia conhecido Valendra na infância, sabia do massacre e tudo o que ocorrera posteriormente. Tudo levava a crer que Valendra era a autora dos crimes. Tito tinha certeza disso. O que ele não entendia era o motivo de aterrorizar uma cidade inteira. Tynay era pequena, quase sem recursos,a população vivia basicamente da agricultura. Não interessava em nada aos nobres que Valendra servia. Tito dormiu pouco essa noite. Ao dia seguinte, estava com enormes olheiras. Vyna reparou e indagou sobre o que ocorria. Tito deu uma desculpa e foi se juntar ao grupo para partirem. Tito e Vyna seguiram caminhos opostos aos das ocorrências. Voltaram ao acampamento, se esconderam e esperaram. O homem do dia anterior reapareceu. Dessa vez, não trazia nada. Tito saiu do esconderijo e o agarrou pelo pescoço. O homem, pego de surpresa, tentou reagir, mas Tito era maior e mais forte. Resignado, o homem se rendeu. Tito, sem o largar, perguntou:” Conhece Valendra, a feiticeira de Monhana? “”Não, senhor, não conheço”. “Se não conhece, como o anel dela foi parar em suas mãos?” “Roubei de um funcionário da prefeitura, senhor Vitan. O anel estava na gaveta do quarto dele, em sua residência. Não minto, senhor, por favor, acredite em mim!” O homenzinho estava assustado. Tito compreendeu que, na situação em que se encontrava, seria incapaz de mentir. Soltou o homenzinho, que caiu ao chão, arquejando. Vyna saiu do esconderijo e perguntou a Tito quem era Valendra. Tito disse que era uma conhecida dos tempos de criança, quando ele morava em outro lugar. Vyna observou o semblante de Tito. Algo estava muito errado. Tito era forte e seguro, não era pessoa de se abalar com qualquer coisa. O homenzinho, já recuperado, levantou -se e disse: “Se o senhor quiser, posso levá-lo até a casa do senhor Vitan”. Tito concordou e ele e Vyna seguiram o homem. Caminharam por um bom tempo e chegaram a uma residência de muros altos. Do lado de fora, Tito sentiu uma forte presença. Valendra estava no imóvel, disso tinha certeza. O homenzinho, tendo cumprido o acordo, correu para escapar. Tito e Vyna logo perceberam que a casa era segura, difícil de entrar. Como o homenzinho conseguiu assaltar a residência? Deveria ter alguma passagem secreta para dentro do imóvel. Começaram a procurar. Buscaram em cada canto e nada de achar. Um farfalhar nos arbustos captou -lhes a atenção. De repente, do meio da vegetação, surgiu um coelho. Parecia vir de dentro da casa. Tito e Vyna se aproximaram e examinaram o local. De fato, havia um buraco na parede, nas extremidades do imóvel. Eles observaram que era grande o suficiente para uma pessoa se esgueirar e entrar na residência. Tito afastou os arbustos e entrou. Vyna o seguiu. Depois de uns quinze minutos, avistaram o pátio interior do imóvel. Notaram que estava vazio, nenhum movimento, nem sons, só silêncio absoluto. Dentro da casa, Tito e Vyna seguiram buscando pistas. Um barulho no andar de cima fez com que ambos olhassem para cima. Tito ouviu uma voz, que reconheceu de imediato. Tinha acertado: Valendra estava no imóvel. Tito disse a Vyna que ficasse no térreo, pois ele iria verificar de onde vinha o som. Vyna teimou e esbravejou, mas Tito foi firme: acontecesse o que acontecesse, ela deveria ficar e não subir. Vyna disse a ele para ter cuidado. Tito prometeu e subiu as escadas em direção a origem da voz. Passou por dois aposentos, sem nada encontrar. Ao se aproximar do terceiro, a voz soou novamente. Valendra falava com alguém, mas não havia resposta. Tito caminhou devagar, sem ruído, e escutou o que dizia. Valendra afirmava que as pessoas de Tynay eram responsáveis pela morte de toda sua família e, agora, ela iria destruí-la, tranforma-la e m cidade fantasma, arrasar com todos, massacrar cada ser vivo, não deixar nada em pé, como fizeram com sua casa e seus pais e irmãos. Tito ouvia sem acreditar: Valendra pretendia acabar com a cidade inteira apenas por vingança, sem nem mesmo saber se eram culpados. Tito agarrou a faca e se preparou para entrar. Valendra, de costas, nada percebeu. Devagar, sem nenhum som, Tito adentrou ao quarto. Um homem, amarrado e amordaçado, jazia no chão. Tinha os olhos arregalados de medo. Valendra, sem se dar conta, continuava a falar dos planos para aniquilar Tynay. De repente, ouviu uma voz:”Pare já com isso, Valendra. Não pode culpar uma cidade inteira pelo que aconteceu com sua família. Sabe muito bem que não foi isso que ocorreu!”. Valendra reconheceu aquela voz: Tito, seu amigo de infância, companheiro de brincadeiras de uma época onde ainda era inocente e tinha esperanças no futuro. “Tito, você melhor do que ninguém sabe como me sinto em relação a isso, e vem e me pede para parar? Por quê eu deveria ouvi -lo?” Tito apelou mais uma vez para o bom senso.” Valendra, destruir Tynay não vai trazer sua família de volta! Afinal, não há provas que alguém ou outras pessoas da cidade tenham participado do massacre!” . Valendra riu e sem meias palavras pegou uma adaga, com inscrições na lâmina que pareciam parte de um ritual. Calma, com cerimônia, dirigiu-se ao homem no chão. ” Senhor Vitan, está na hora do sacrifício. Deve honrar meus pais e irmãos.” Valendra, apesar de todos os esforços deTito na tentativa de convence-la, não se deteria por nada. Ele, então, usou a única alternativa que possuía: agarrou a faca e, sem pestanejar, a lançou na direção de Valendra. Atingida nas costas, Valendra caiu,vai adaga na mão. Tito tinha atingido um ponto vital, sem chances de recuperação. Espumando sangue, Valendra se virou e olhou para Tito. ” Meu melhor amigo, companheiro de infância, tinha que ser você a pessoa que me mataria. Essa é uma grande ironia do destino. Estou partindo sem ter concretado minha vingança. Espero que, ao reunir-me com meus pais e irmãos, eles não estejam decepcionados comigo. Adeus, meu amigo”. Assim dizendo, Valendra espirrou sangue, estirou o corpo no chão e faleceu. Tito observava tudo com os olhos marejados. Acabaram de matar sua amiga de infância, mas a menina doce e meiga que conheceram não mais existia há muito tempo. O homem jazia no chão. Tito recuperou sua faca, cortou as cordas e o libertou. O homem, chamado Vitan, agradeceu. Ele contou que conheceram Valendra através de um amigo, quando estava buscando médicos para tratar a enfermidade de sua irmã. Disse que Valendra, após tratar sua irmã, pediu para ficar um tempo hospedada em sua casa. Não imaginava que ela teria um plano tão macabro. No térreo, Vyna se preocupava. Tinha passado muito tempo e Tito ainda não aparecia. Passos vindos de cima chamaram sua atenção. Tito e o senhor Vitan desciam as escadas em direção ao térreo. Vyna correu a perguntar o que tinha ocorrido. Tito lhe contou sobre Valendra e seus planos de vingança. O mistério da floresta estava resolvido. Poderiam voltar para casa. Deixando o senhor Vitan encarregado de contactar as autoridades locais, Tito e Vyna retornaram ao lugar das acomodações. Vyna perguntou se Tito não pensava em recolher a recompensa. Ele disse que, para ele, não fazia diferença. Havia resolvido o caso, era caçador, não detetive, as ocorrências nada tinham a ver com animais selvagens. Vyna se calou. Conhecia bem a personalidade do amigo. Tito acabara de matar sua companheira de brincadeiras infantis, claro que não se sentia bem com isso. No quarto, Tito relembrava o ocorrido, se perguntava se deveria ter insistido mais, ter feito mais alguma coisa para evitar sua morte, mas percebeu que Valendra, no estado em que se encontrava, não ouviria nada, nem ninguém, não pararia até conseguir o que queria. Com os pensamentos dominando sua mente, adormeceu. Sonhou com a garota de tranças, vestido azul, sorrindo e dando adeus. Foi a última vez que viu Valendra. No dia seguinte, ele e Vyna arrumaram as bagagens, se despediram do secretário e dos outros caçadores e retornaram para casa. Foram recebidos como heróis pelo prefeito e a população. Depois de um almoço comemorativo, Tito e Vyna se dirigiram para suas casas. Tito continuou com sua rotina. A cidade continuou a crescer. A vida seguiu seu curso, caminhando nas areias do tempo.